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  • Jefferson Shiun Flausino

A cultura do medo



Advertência: Se você acha que não sente medo, então, esse texto não é para você. Mas cuidado! Pois esse é o mesmo tipo de crença que eu tinha quando era criança, acreditando estar seguro ao me esconder embaixo da coberta com medo do “bicho-papão”.


Se observarmos com uma certa atenção a partir da realidade, percebemos facilmente que o medo é uma condição natural e necessária da sobrevivência humana. Um tipo de ferramenta indispensável do senso de autoproteção que trabalha pela manutenção da vida - embrenhado em nosso DNA. Não importa o quanto se queira negar, é humanamente impossível não sentir medo e isso é um fato! A questão, portanto, é o que fazemos quando sentimos medo?


De alguma maneira alimentamos diferentes níveis de medo e, dessa necessidade, colhemos a nossa sobrevivência ou a própria destruição. O medo não é uma anomalia da condição humana, é uma ação resultante de estarmos diante da iminência do maior de todos os medos, a morte. Seja essa possibilidade real ou ilusória. Por diferentes variáveis, que não entrarei em detalhes aqui, o nosso cérebro encontra muita dificuldade para decifrar, diante da ação do medo, o falso do verdadeiro, o perigo real do ilusório, se devo fugir ou lutar. Em resumo, se vou viver ou morrer. Se investigarmos a razão do medo, qualquer um, chegaremos à conclusão de que todos os medos se alimentam do medo da morte – o senhor de todos os temores. Geralmente, essa dificuldade de diferenciar o falso do verdadeiro ocorre quando estamos apartados da realidade – mesmo ela estando ali, diante dos nossos olhos. É curioso isso, pois o corpo físico está sempre na realidade, no presente, testemunhando a dádiva da vida. Mas a mente, ansiosa e em devaneios, costuma estar entre as dimensões do passado e do futuro. Isto é, quando a mente encontra dificuldades para estabelecer uma conexão com o presente, real e concreto, ela está flutuando na linha do tempo e tende a produzir uma série de ilusões a cerca do julgamento que faz do contexto em que o indivíduo se encontra. Essa dificuldade ocorre, também, por termos desenvolvido, ao longo da vida, um olhar distorcido da realidade. Um olhar que enxerga apenas o próprio umbigo – e está tudo bem se o ponto de vista não for à autoproteção. Nesse sentido, há uma tendência involuntária de produzirmos diferentes tipos de medos que dialogam entre si e alimentam-se simultaneamente, embasados em símbolos autodestrutivos – entendendo, aqui, que a mente é uma construção mítica e simbólica. Resumindo, continuamos a acreditar, mesmo depois de adultos, que o “cobertor” é a melhor saída para fugir do “bicho papão”.


Agora, a realidade sensível e que só pode ser percebida no presente, ao contrário de todo sofrimento que produzimos por rechaçá-la é um verdadeiro e poderoso presente do Criador a todos nós. A realidade, creio, é uma dádiva Divina cuja percepção e gratidão surge, somente, pela exacerbação da inteligência – entendendo inteligência como a capacidade de perceber a verdade. A realidade, apreendida pela correta percepção dos fenômenos naturais, retrata ao coração do bom ser humano a beleza onisciente da criação. A beleza presente na natureza, captada por nossos olhos e ofertada a nós pelo Criador, é a dedicatória personalizada no livro do Senhor Celestial a todos nós. Ao compreendermos esse ensinamento primeiro, o coração de quem sente medo é acolhido e protegido, e no afago do amor do Logos o medo desvairado tende a dissipar-se. Viver pela Graça é estar pleno na Realidade. Logo, teremos apenas os medos certos a sentir.


Estou, aqui, procurando sinalizar algumas pistas sobre como gerenciar adequadamente a cultura do medo que, endemicamente, aprisiona os corações de muita gente – principalmente nesse momento histórico pós pandemia e de tudo o que foi produzido de negativo nesse processo. Então é necessário avançar um pouco mais nas origens do medo para tentarmos compreender as suas artimanhas e estratégias. Eu, Jefferson, começo essa tentativa observando com atenção à minha volta e procurando me conectar com a realidade – pois só na realidade poderei encontrar uma possível resposta. Afinal, onde mais a realidade estaria senão dentro do meu círculo de latência. Me permitam, portanto, relatar minha experiência a partir do meu meio de convívio.


Uma das necessidades que percebo em meus alunos de yoga e artes marciais ao matricularem-se em minha escola é o desejo de minimizar a ingerência do medo, da insegurança e impotências diversas em suas decisões e ações cotidianas. De poder promover, através da prática de nossos métodos e conceitos, uma sensação real de segurança física, mental e emocional que transcenda a mera sensação e se torne uma realidade a ser experienciada. É claro que esse medo, às vezes sistêmico, embrenhado na psique do aluno recém-chegado não é revelado por ele a mim de imediato. Até porque, muitas vezes, ele desconhece que pode possuir um tipo de medo endêmico e sorrateiro que o domina há tempos. Então, em determinados casos, dentro da minha experiência observacional, posso identificar nos trejeitos, fala, respiração etc. que ele está à procura, mesmo que sem saber, de resolver esse problema que muito provavelmente tende a se agravar, no futuro, se não ocorrer uma mudança no comportamento desse indivíduo. Afinal, como bem sabemos, mudar é difícil, mas não mudar pode ser um desastre na vida da gente. Então, as minhas impressões e estratégias sobre como podemos gerenciar o medo, adequadamente, veio através da prática do yoga, artes marciais, religião e filosofia. Artes e disciplinas que estudo e pratico há mais de trinta anos. Pois além de um histórico que me fez provar o valor da coragem e as armadilhas do medo, procuro com muito esforço e, confesso, com certa dificuldade, direcionar minha inteligência por um fluxo intelectual alinhado há três fontes de conhecimento; a espiritualidade (prática religiosa no meu caso), a ciência e a filosofia. E neste tripé, pelo menos para mim, a prática dos verbos crer, ter e ser equalizam a vida, como um todo. Promovendo oportunidades reais ao correto discernimento, à saúde integral e, o mais importante, uma capacidade de permanecer na realidade - ou pelo menos manter um olhar menos distorcido sobre ela.


Portanto, minha pergunta é bem simples: Você tem medo de quê?


Segundo um dos maiores pensadores do catolicismo, São Tomaz de Aquino, a diferença fundamental entre o ódio e o medo depende do tipo de adversário que temos pela frente. Isto é, se defrontamos alguém que consideramos mais forte e perigoso, sentimos medo. Já ao enfrentarmos alguém que julgamos mais fraco, geralmente, sentimos raiva ou ódio.


Pegando esse pensamento como gancho e observando às diferentes áreas de atuação que desenvolvemos, geralmente quando sentimos raiva ou ódio por qualquer coisa que seja - que é natural da condição humana, e não tratamos de resolver isso ou transformamos esse sentimento em algo positivo, temos uma inclinação imediata a alimentá-lo contra os objetos de nossas mazelas e, claro, isso sempre termina mal. A questão aqui, então, é como transformar a raiva e/ou ódio em energia motivadora para converter um problema em solução sem quebrar a harmonia natural das coisas – se possível, claro. E assim retomar à equanimidade. Essa é uma questão muito interessante para refletirmos.


Quanto ao medo de ser “destruído” é necessário se perguntar: Essa pessoa, circunstância ou cenário pretende, verdadeiramente, me agredir fisicamente? Eu serei destruído nessa condição? Querem acabar com o meu trabalho, com a minha família, com a minha vida? E por mais exagerado e absurdo que pareça o convite a esse tipo de reflexão você perceberá que, após fazê-lo, o resultado trará um alívio imediato e uma sensação de coragem. Pois percebemos que muitos dos medos que alimentamos são frutos de nossas inseguranças e achismos alimentadas por fatores externos, muitas vezes tendenciosos e manipulantes e, neste despertar, conseguimos enxergar o cenário todo com mais clareza e capacidade de discernir adequadamente. Depois, creio, é importante avaliar o risco verdadeiro de seus medos e compará-los com a realidade. Usando para isso a sua capacidade de perceber o óbvio, o senso de proporção das coisas e se esse mesmo senso está alinhado com a realidade – essa realidade que você vive, testemunha todos os dias e que define a verdade pelo qual conduz o seu coração e mente. É bem provável que a dosagem do seu medo tende a diminuir depois desses exercícios. E se assim não for, creio, você realmente tem um problema nas mãos e precisa procurar ajuda profissional para resolvê-lo. Aconselho retomar ou iniciar uma prática espiritual consagrada, fazer atividades físicas inteligentes para oxigenar o cérebro, estudar os clássicos da literatura para aguçar a sua imaginação e amor pela beleza ou buscar um bom terapeuta.


Eu volto a frisar à importância da apreciação da beleza como fonte primária à conexão com a realidade. A beleza presente na natureza, no sorriso de uma criança, no olhar terno e acolhedor de seus pais e avós, na arquitetura clássica, na música erudita, na poesia, no belo tal como é revelado. Em paralelo retorne às origens de sua formação espiritual, busque a prática do verbo crer. Pratique exercícios físicos para deixar seu corpo e mente mais fortes e menos suscetíveis a doenças – físicas e mentais. Desenvolva sua inteligência pelo estudo de tudo que é profundamente intrigante e belo, também pelo auto estudo – que visa o autoconhecimento. Desenvolva o senso de humor inteligente. Alimente-se adequadamente. Pratique o amor ao próximo e mantenha seu coração conectado com o bem e com a verdade. Estas são ações eficazes que afastam a mente dos medos ilusórios e, como resultado, traz ao coração uma sensação real de estabilidade, firmeza e conforto (conceito ásana do yoga literário). Reflita sobre isso.


Certamente quando praticamos a reflexão sobre os diferentes medos que alimentamos é preciso perguntar-se: esse medo é fruto de minha incapacidade de lhe dar com circunstâncias antagônicas às minhas comodidades, potências e certezas? Esse medo foi infiltrado gradual e continuadamente em meu coração sem que eu tivesse consciência disso? Ou é o resultado de ambos? Acredite, essa é uma reflexão muito difícil de se fazer, mas é necessária. Pois entre muitos aspectos diferentes da construção da nossa cognição, estamos, também, condicionados ao erro de julgamento por conta de inúmeros vícios de aprendizados ao longo da nossa vida e pré-disposição a abraçar a ilusão e a rechaçar a realidade. O pior é que fazemos isso, muitas vezes, acreditando estar no caminho contrário. Ou seja, seguimos na crença de estarmos certos e conectados com a realidade quando, na verdade, estamos equivocados sobre a realidade. Então diante disso podemos perguntar: o que é a realidade? Eu compreendo que é aquilo que está, foi e será independente da nossa existência ou interferência. São as coisas tais como são e além da influência deletéria da nossa visão, distorcida das coisas que alimentam a nossa compreensão de mundo e que sufocam o nosso discernimento. A realidade não pode ser alterada por nossas mãos. Ou seja, as coisas não são moldadas no universo de acordo com o que queremos do universo. E quando tentamos inverter a ordem natural das coisas, certamente, produzimos sofrimento, dor e muito medo.


Para mim, como dito antes, a realidade além de um fato anímico percebido pela inteligência é, acima de tudo, a presença da Graça de Deus em nossas vidas. Há tantas evidências dessa Presença à nossa volta que não as perceber é apenas ignorância – no sentido de desconhecer, apenas. Afinal, não podemos contemplar o que fechamos os olhos para ver. Daí a importância em aguçar a inteligência. Pois quanto mais inteligentes nos tornamos, mais nos maravilhamos com a presença da Realidade. Pois como dito, antes, o que é a inteligência se não a capacidade de questionar, solucionar e perceber a Realidade a partir da sua verdade existencial. É, portanto, a inteligência, um presente de Deus a nós para nos conectarmos a Ele e, com isso, cumprirmos com a nossa vocação existencial – o Dharma, a Verdade.


Eu poderia desenvolver um texto gigantesco sobre a Realidade, tal como Ela é. Mas o meu objetivo é provocar à reflexão para que cada leitor busque a Realidade pela própria experiência que exige, além de uma disciplina observacional e intelectual veemente, estar livre de amarras ideológicas e nefastos vícios de comportamentos escravizantes. É somente no âmago do ser que podemos abrir os olhos que tudo vê e que está além dos olhos da carne.


*“Se você não tem a primeira das grandes virtudes, a coragem, então não terá, mas nenhuma outra”. Portanto, padecerá sob o medo. Compreenda que a verdadeira coragem não é a abstração do medo, mas sim, a capacidade de gerenciar o medo sem ser controlado por ele.


Desperte sua coragem através da inteligência. Questione o senso comum que lhe conforta e aprenda a ouvir o contraditório. Seja livre em seus pensamentos, palavras e ações agindo contra tudo o que oprime sua capacidade de reverenciar a realidade. Só assim, creio, poderá viver livre das garras do medo.


*Frase de filósofo grego, Aristóteles.

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