Buscar
  • Jefferson Shiun Flausino

A missão de um yogi

Atualizado: 3 de Nov de 2018

A missão de um yogi, creio, é desenvolver o potencial humano em níveis extraordinários, para que o indivíduo possa experienciar o verdadeiro propósito de sua vida, o Dharma – aquilo que cada um nasceu para ser e realizar no mundo.


A missão de um yogi

No caminho do Yoga, os praticantes mais questionadores procuram em seu treinamento diário, compreender as questões fundamentais da experiência da vida. Ao exercitar a reflexão, geralmente, faço sete questões essenciais, a fim de diminuir, pelo esforço constante, as inúmeras ilusões que nos seduzem a todos com certa frequência.


1. O que é a vida que me foi ensinada e, se julgo conhecê-la, por que me sinto desconectado deste entendimento?

2. Como compreender a vida tal como ela é, diminuindo a interferência do meu ego e das ilusões de minha mente que devaneia?

3. Por que questiono o sentido de uma vida que, a princípio, parece não ter sentido?

4. Se há um sentido existencial, qual é, portanto, o sentido da minha vida?

5. Para onde eu estou indo na experiência da vida e, se vou, estou indo por um caminho seguro?

6. Seguir em frente implica um período de tempo. Então, qual é a relação entre passado, presente e futuro em minha experiência de vida e, analisando o que é o tempo, como estou me relacionando com ele?

7. Se compreendo as questões acima, não com respostas prontas, mas, com novas e melhores perguntas, como viver o yoga enquanto filosofia prática de vida nesse constante embate existencial?


Como um yogi, brasileiro, de formação contemporânea, gostaria de compartilhar com você, se me permitir, algumas aspirações sobre as questões acima que, talvez, possam ajudá-lo na busca por um sentido existencial que lhe traga maior contentamento na vida e a sensação de expansão da própria consciência, aqui e agora!


1. O que é a vida que me foi ensinada e, se julgo conhecê-la, por que me sinto desconectado deste entendimento?


Todos nós, de alguma maneira, fomos educados por nossos pais com um certo carinho, dedicação e amor. Da maneira deles, certamente, esforçaram- se muito para nos preparar adequadamente para o mundo, no sentido de sermos autossuficientes e pessoas íntegras à sociedade. A questão é: a forma como fui educado, mesmo com todo o amor, foi a maneira mais adequada? E se foi, por que sinto que teve algo estranho no resultado dessa educação? Por que, depois de ter sido preparado para o mundo, as coisas, tais como estão, não me convencem no sentido de me fazer sentir contentamento ou, simplesmente, coerência? Poderia, aqui, seguir com uma profusão interminável de perguntas, sobre o fato de sentir que alguma coisa falhou em minha criação e educação. Então, o que seria essa falha? Esse defeito em minha educação?


A resposta pode ser assustadora! Pois nenhum de nós, verdadeiramente, é o que deveria ser, em essência – naquilo que você nasceu para ser e realizar no mundo. Não somos, sem devido treinamento, o que a nossa natureza nos programou para ser. Somos alguma coisa diametralmente oposta à nossa verdadeira essência existencial. Fomos criados e educados, desde a primeira infância, para sermos o que os outros e/ou coletividade querem que sejamos. Fomos condicionados a vivermos de acordo com valores que não são necessariamente nossos, essencialmente falando. Mas sim, de circunstâncias alheias à nossa vontade original. Somos um mecanismo, uma engrenagem, de uma máquina orgânica que sufoca a individualidade para promover um tipo de coletividade que beneficia a ascensão do universo de Maya - a ilusão, na mente humana. Pare para pensar um pouco: Você não escolheu o nome que usa, o idioma que fala, parte das crenças que possui e nem mesmo o que gostaria de comer diariamente. Tudo foi, em certa medida, colocado em você. Tudo foi condicionado em seu corpo e mente de uma forma que você sequer percebeu. Somos o eco de nossos ancestrais e parte disso é, sim, muito bom e essencial na nossa vida. Em nosso DNA temos registrados os costumes e características dos antigos, temos um imprint psíquico-orgânico de toda a nossa árvore genealógica. O passado de todos está em nosso corpo e mente. Por exemplo: quantas vezes você se pegou pensando, falando ou fazendo coisas que pareciam não ter sentido algum, ou não ter saído de você? Coisas que você, intimamente, não queria fazer, mas que reflexiva ou instintivamente afloraram do “nada” e trouxeram resultados desfavoráveis ao que você realmente queria. Pois é, isso pode ser, muito provavelmente, um reflexo psíquico-orgânico que você herdou dos seus ancestrais.


É preciso, primeiramente, identificar os aspectos negativos e positivos de sua herança biológica, observando atenta e profundamente seu comportamento nas coisas cotidianas. A maneira como você se relaciona com as pessoas, com o trabalho, estudos, consigo mesmo. Perceba com propriedade como você está conectado ao mundo. Para conseguir isso, é necessário atenção plena no aqui e agora. É necessário um esforço nesse sentido até que a auto-observação em relação ao mundo torne-se quase que instintiva. Reflita diariamente! Investigue sua consciência e mente! Faça isso sem máscaras, sem medo de travar contato com o seu eu experiencial, aquele que está vivendo o presente, o aqui e agora, sempre.


Permita, portanto, que esse tipo de observação abra novas questões. Questões mais inteligentes sobre si mesmo e como esse “si mesmo” está se relacionando com o mundo. Encontre soluções travando íntimo e franco contato com os seus conflitos internos. Não se exima da responsabilidade, culpando pessoas e/ou circunstâncias por fracassos e perdas que sofreu. Assuma a responsabilidade pelas ações passadas para compreender os resultados presentes. Você é o único responsável pelo que acontece na sua vida, ninguém mais! Pessoas e circunstâncias até interferem, mas é sempre você quem decide até que ponto essas interferências mudarão você, para melhor ou para pior. Assuma o seu destino e construa, dia a dia, uma nova vida!


Reprogramar-se de acordo com os próprios valores. Àqueles valores que te impulsionam a ser uma pessoa melhor que seu antigo eu. Isso requer tempo e treinamento. Se você tiver paciência e constância na prática do autoconhecimento, sugerida pelo yoga, certamente sua vida deixará de ser insignificante, no sentido de permitir encontrar o verdadeiro propósito da própria vida!


2. Como compreender a vida tal como ela é, diminuindo a interferência do meu ego e das ilusões de minha mente que devaneia?


Ver e sentir as coisas tais como elas são é, indiscutivelmente, uma tarefa muito difícil, mas crucial para encontrar essa resposta, pois sofremos interferências de todos os lados, constantemente. Familiares, colegas de trabalho, amigos, mídias e outros influenciam direta ou indiretamente o nosso discernimento quanto à capacidade de decidir pela própria vontade e não pela vontade alheia. Primeiramente, duvide de tudo e de todos, não no sentido pejorativo da ação, como se todos estivessem tramando algo contra você. Não é isso! Duvide no sentido de questionar quanto à veracidade daquilo que você vê e ouve, vindo de quem está se relacionando com você. No trabalho, no clube social, nas rodas de amigos, familiares e, inclusive, daqueles que lhe inspiram confiança e crença. O questionamento é para dentro de si mesmo. Questione-se de forma inteligente sem permitir-se influenciar demasiadamente, num primeiro momento, pela “verdade” que se apresenta. Duvide quando ouvir frases, como: “Aprenda aqui o verdadeiro yoga”; “Este é o verdadeiro mestre...”; “Eu represento a verdade por detrás...”. Ou também “Você é muito especial!”; “Você é o melhor!”; “Quero ser seu melhor discípulo...”; com “certezas” e “verdades”, cuidado! Sempre questione, investigue, quando a resposta parecer pronta a você, pois não existe respostas prontas! Argumente consigo mesmo, critique-se de forma construtiva quando a vaidade, orgulho ou sensação de ter a certeza lhe seduzir. A única verdade que existe é aquela que está no âmago do seu coração – o Dharma, o seu propósito existencial, todo o resto, pertence a Maya – a ilusão.


Ao observar as coisas, procure não justificar sua observação apenas pela sensação de ter vivido tal experiência – provavelmente sua primeira observação está distorcida, seu primeiro julgamento é equivocado. Perceba as coisas por um ponto de vista imparcial, não tendencioso às próprias expectativas. Ou seja, por um olhar não voltado aos valores que te regem e circunstâncias que viveu ou vive. Esteja dentro de um cenário como se estivesse do lado de fora observando todas as possibilidades, todos os ângulos. Nunca decida de imediato se sua escolha for motivada por desejos e expectativas. Somos levados a ver o resultado de um cenário que ainda não se formou, quando esse cenário reflete as expectativas daquilo que queremos ver rápida ou prontamente concluído. Cuidado, provavelmente é sua ansiedade, sempre ilusória, se manifestando, cegando você.


Treine a observação imparcial, global, não tendenciosa às suas expectativas sobre qualquer coisa que se apresente a você. Pense antes de falar ou decidir, no sentido de ver as coisas fora do primeiro contexto, aquele que você quer ver, apenas, e próximo do ponto de vista daquilo que foi observado tal como é, sem que você parasse para justificar o que vivenciou. Perceba como o seu ego se manifesta nas conexões que você trava na vida. E como esse ego interfere em sua visão de mundo e decisões. Atenção plena, no presente, no aqui e agora, favorecem decisões mais assertivas sobre qualquer tema cotidiano. Pratique a observação imparcial e questione-se a todo instante.


3. Por que questiono o sentido de uma vida que, a princípio, parece não ter sentido?


Segundo grande parte das correntes filosóficas ocidentais e, também, algumas orientais, o Universo é um caos e tudo nele é “violento”, pelo ponto de vista do que consideramos “vida harmoniosa”. Acredita-se que viemos do nada, estamos em meio ao nada e vamos para lugar algum. Ou seja, não há propósito nessa vida. Não há um desígnio ou destino traçado para cada um de nós como se houvesse um mapa cósmico flutuando no absoluto, decidindo cada aspecto de nossa existência. Para essas correntes de pensamento, somos um acaso no processo evolutivo desse caos instalado, que é o Universo.


Certamente, por tudo que nossa espécie humana observou ao longo de sua evolução e, isentando o pensamento religioso – pois não podemos entrar nesse mérito, haja vista que o Yoga é filosofia, no sentido do pensamento humano, e não religião –, acreditar que o Universo é um caos e, que nós, seres humanos, fazemos parte desse caos na evolução natural, parece inevitável e, sob muitos aspectos, se comprova como um fato. Mas existe um detalhe nesse fato e é nesse detalhe que o Yoga se instalou. Aos seres humanos, foi dada a capacidade de pensar e promover uma consciência interativa. Se esse presente, o aqui e agora, é um acaso do Universo ou nos foi dado por uma providência superior à nossa compreensão, não nos cabe, enquanto yogis, deliberar metafisicamente apenas, mas sim despertar e expandir essa consciência interativa no sentido de produzir um sentido existencial, na prática, para a minha vida, aqui e agora.


Se para muitos não há um sentido na vida, para nós, yogis, sim, há um sentido na vida. Há um propósito existencial que pode ser despertado e desenvolvido através da compreensão e prática dos ensinamentos do Yoga, transmitidos sistematicamente na obra célebre desta tradição, os Yogasutras. É claro que os sutras de Patanjali não nos levam para uma dimensão de autoconhecimento perfeita e compreensão plena da vida tal como ela é, mas sim, permitem-nos acessar mecanismos de nossa mente que, sem treinamento apropriado, permanece adormecida para a verdade e, com treinamento apropriado, reeduca maus hábitos do pensamento, estabelece parâmetros mentais adequados para que possamos escolher com mais assertividade quais caminhos na vida são mais seguros seguir e nos afasta, consideravelmente, das constantes ilusões que nos seduzem diariamente.


Esse processo de autoconhecimento, ensinado pelo Yoga, abre nossa mente e permite a expansão da consciência integrativa, no sentido de nos fazer mais lúcidos sobre as questões da vida cotidiana e como adequá-las sem grandes perdas ou ilusões. Dessa maneira, acessamos caminhos dentro da nossa consciência, a fim de nos levar à verdade do que somos. Aprendemos, portanto, a aprender com a própria mente, não somente de fora para dentro, mas principalmente, de dentro para fora – controlamos seus devaneios. E uma vez que encontramos os caminhos do autoconhecimento, penetramos, pela prática constante, o âmago de nossa mente e coração, e, uma vez lá, encontramos a verdade, o Dharma, que nos anima a seguir em frente para cumprir o seu propósito existencial.


Estando em íntima cumplicidade com a verdade – Dharma, os questionamentos do yogi se tornam mais requintados, precisos e coerentes. E nesse caminho, percebemos o próprio sentido da vida. Questione-se e mantenha-se livre!


4. Se há um sentido existencial, qual é, portanto, o sentido da minha vida?


Na visão do Yoga, é despertar o Dharma, a verdade, e fazer cumprir o seu propósito existencial. Essa verdade, o Dharma, jamais vem de fora para dentro, ou seja, ela nunca lhe é imposta ou induzida a acreditar que seja ela, vinda de fora, a sua verdade original. O Dharma, a sua verdade natural, vem sempre de dentro para fora, do seu coração para o mundo. Para acessar essa verdade é preciso treinar a investigação profunda da própria mente e consciência. É preciso fechar-se para muitos aspectos ilusórios da existência humana. É preciso sair dos modismos, tendências de comportamento, posturas sociais contrárias ao propósito do Yoga, que é o despertar da consciência e libertar você do sofrimento produzido pela mente ilusória. É preciso recolher-se dentro do próprio coração. É a partir do coração que estabelecemos o sentido da própria vida e a conexão adequada com o Universo ao qual pertencemos.


5. Para onde eu estou indo na experiência da vida e, se vou, estou indo por um caminho seguro?


Saiba que não há garantias, não há certezas sobre o futuro. Acredito que a única certeza sobre o futuro é que ele é sempre contraditório às expectativas que nos animam no presente. Na jornada do Yoga, não nos preocupamos muito com o futuro, pois ele é sempre a consequência de um presente, de um momento vivido que jamais o conhecerá. O presente é o resultado distorcido de um passado mental, que é o depositório de ideias, de pontos de vista de um futuro sempre inexistente. Não há, no aqui e agora, experencialmente, passado e futuro na mente yogi. O que há é somente o presente. Na jornada yogi, o importante é seguir sempre em frente sem produzir demasiadas expectativas, pois quanto maiores forem suas expectativas, maiores serão suas decepções. É importante saber para onde se está indo, definir metas sobre esse caminho, estratégias de contenção. É preciso manter o foco, a objetividade dentro de um projeto de vida, para que ele aconteça dentro das possibilidades que se estabeleceu. Mas se não souber para onde se quer ir, não importa muito num primeiro momento, o importante é seguir em frente. Não pare, não se estagne. E encontrará seu caminho.


6. Seguir em frente implica um período de tempo. Então, qual é a relação entre passado, presente e futuro em minha experiência de vida e, analisando o que é o tempo, como estou me relacionando com ele?


O tempo existe apenas na mente humana, na condição humana. Não há tempo no Cosmos. Mas essa marcação simbólica que define princípio, meio e fim de qualquer coisa é, de certa forma, crucial na experiência humana. O passado é somente uma história falaciosa, registrada a partir de um ponto de vista isolado, de um episódio vivido dentro da compreensão limitada de quem o viveu. O passado existe apenas na mente de quem, no presente, vive a experiência das memórias que naquele momento foram relevantes guardar, mas, ainda assim, certamente refletem apenas uma parte da verdade, aquela vivida por quem se alimenta de tal nostalgia. Quanto ao futuro, é impossível prevê-lo com exatidão. O futuro é apenas uma ideia, uma expectativa, um planejamento feito e alimentado a partir de uma mente animada pela experiência do achar, do deslumbrar, de querer acreditar que o amanhã será melhor que o hoje – que pouco percebo e me conecto. A questão central para compreender aspectos entre o passado e o futuro, que chamamos de presente, é estar conectado íntima e vivamente ao presente, ao aqui e agora. É observar, é prestar atenção nos detalhes da vida presente acontecendo em seu corpo, mente e coração. Observando o mundo com os olhos da verdade que somente se manifesta no presente. É estar desperto e fora do mundo de Maya – a ilusão. Passado e futuro pertencem a Maya. Cuidado para não sucumbir aos encantos e seduções de Maya. Estar acordado, desperto, é estar no aqui e agora, sempre!


7. Se compreendo as questões acima, não com respostas prontas, mas, com novas e melhores perguntas, como viver o yoga enquanto filosofia prática de vida nesse constante embate existencial?


No dia a dia! Procurando levar os ensinamentos do Yoga para a sua realidade cotidiana: no trabalho, na família, com os amigos, no supermercado fazendo compras, no preparo do alimento, e tudo que resulta do que você faz com a sua vida. Para isso, preste atenção naquilo que o Yoga lhe chama a atenção – sua consciência desperta no presente, o estado de atenção plena no aqui e agora. Apenas isso.

Concluo este capítulo orientando para que não considere minhas respostas como prontas à sua experiência de vida. Encontre as próprias respostas. Investigue profundamente a sua mente. Medite! Persiga os próprios questionamentos e acesse a própria verdade – o Dharma.


Jefferson Shiun Flausino

Primavera de 2018


#missãoyogi #yoga #hathayoga #escoladharma #dharma #autoconhecimento #dhyana #meditar #zen #comoseryogi #jeffersonshiunflausino

236 visualizações

​©Escola Dharma
Autoconhecimento, Saúde e Bem-Estar​

(11) 3271-0606 | WhatsApp (11) 99459-7887