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  • Jefferson Flausino

Nossa prática de cada dia (parte 2)

Atualizado: 6 de Out de 2017

A felicidade como um fenômeno não isolado.




“A felicidade é olhar para frente e enxergar objetivos. É olhar para trás e enxergar conquistas. E, certamente, poder olhar para a vida de uma maneira geral e enxergar significado.”

A felicidade é constantemente associada a sentir-se bem, a ter emoções positivas. Mestres, Gurus, Filósofos e Religiosos dissertam largamente sobre a felicidade, sugerindo técnicas e circunstâncias que possam promovê-la de forma derradeira. Não pretendo, neste texto, entrar no mérito se a felicidade pode ou não ser alcançada de maneira utópica. No entanto, sugiro a possibilidade de podermos entender a felicidade não como um evento isolado, mas como o resultado de uma série de eventos.


Para entendermos essa ideia, vou dar um exemplo simples: vamos pensar na água, tão essencial para nossa sobrevivência.  Temos dois átomos de hidrogênio, um átomo de oxigênio, condições climáticas favoráveis e uma simples faísca. Cada uma dessas coisas é um elemento, que, em conjunto, promove o surgimento da água. A água não é apenas água, é o somatório de um conjunto de fatores. Com a felicidade é a mesma coisa. É óbvio que emoções positivas são importantes para a felicidade. Sentir-se bem, sentir-se contente, é um elemento desse conjunto de fatores que chamamos de felicidade. Em outras palavras, a felicidade não se esgota nisso, a felicidade não é somente sentir-se bem e contente.


O primeiro passo para compreendermos a felicidade é que aquela sensação do EU, como um só, de que EU sou isto ou aquilo, como, por exemplo: ao se olhar no espelho e dizer "EU sou o Jefferson, professor, etc". Essa sensação é na verdade um erro! Estudos vêm mostrando que, na verdade, é como se tivéssemos dois EUs. Duas dimensões psicológicas que são responsáveis por quem nós somos. Um desses EUS, podemos chamar de EU experiencial. É o EU que está vivendo a experiência atual, o presente. Os estudos demonstram que essa experiência tem a duração de três segundos apenas. O EU aqui descrito é extremamente presente e, portanto, experiencial. Além disso, temos também um outro EU, que é chamado de EU projetivo. Um EU que pensa sobre a vida, que olha para o passado e para o futuro.


Perceba, então, que existe uma parte de nós que é experiencial, ou seja, que vive o presente. E uma outra parte que é projetiva, que delibera sobre a vida “veredando” entre o passado e o futuro. Isso significa que viver e pensar sobre a vida, do ponto de vista psicológico, são coisas bastante diferentes. E uma coisa não é mais importante do que a outra. Na verdade, o importante mesmo é sabermos compreender as características de cada EU e suas diferenças na construção de nossos valores na experiência da vida. Afinal, se eles são diferentes, isso significa que aquilo que faz o EU experiencial feliz, não vai, necessariamente, fazer o EU projetivo feliz. E, de fato, hoje sabemos que as condições de felicidade do EU projetivo não são as mesmas do EU experiencial. E, afinal, o que faz cada um desses nossos diferentes EUs felizes?


O EU projetivo, o EU que pensa sobre a vida, está olhando para fora do agora. Isso significa que ele vive de histórias. Do passado, através de nossas memórias, e do futuro, pela projeção de nossas expectativas. E o que faz essas histórias felizes, são: Objetivos e Conquistas. É olhar para o passado e enxergar conquistas de valor. É olhar para o futuro e também enxergar objetivos de valor. Obviamente, cada indivíduo tem um conjunto de valores que é muito peculiar. Valores podem ser inúmeras coisas, como acumular patrimônio, ganhar dinheiro, acesso à cultura e educação de qualidade, viagens, família e outros. Por exemplo, estudos vêm mostrando que quanto mais usamos o dinheiro para comprar experiências ao invés de coisas, mais sensações felizes adquirimos. Afinal de contas, o EU projetivo vive de histórias, e experiências nada mais são do que histórias. Os estudos mostram que, reiteradamente, a melhor maneira de gastar o dinheiro é com viagens. Porque viagens são um bom exemplo de experiências, de histórias, que alimentarão nossas memórias para as histórias que contaremos no futuro. Nesse sentido, demais conquistas como trabalho, finanças e afeto podem sim trazer felicidade, mas somente para um pedaço de nós, que é esse EU que pensa sobre a vida, o EU projetivo. Outro elemento para a felicidade desse EU projetivo é o significado. Ou seja, é viver por algo maior que nós mesmos, é dar significado à nossa existência, é agregar valor a esse significado, como família, casamento, trabalho, filhos, filosofia de vida, religiosidade, voluntariado, etc. Cada indivíduo vai eleger ou encontrar sua missão existencial, seu significado de vida.

O segundo EU, é o experiencial. Este, diferente do anterior, não está preocupado em pensar sobre a vida, ele é o EU que vive e, portanto, está preocupado em viver. E o que faz o EU experiencial feliz é o engajamento. É viver o máximo possível engajado em nossas atividades. O engajamento tem a ver com Desafio e Competência. Quando não enfrentamos desafios, ou os desafios são pequenos demais para nossas competências, isso promove o tédio, a desmotivação. Quando, ao contrário, enfrentamos um grande número de desafios, grandes demais para as nossas competências, tendemos ao estresse. O engajamento é, portanto, quando encontramos o equilíbrio entre os desafios que enfrentamos e nossas competências para supera-los. Isso pode, por exemplo, nos levar a um estado psicológico conhecido como “flow”, traduzido para o português como fluxo ou fluir. Quando estamos em flow, perdemos a consciência de nós mesmos, perdemos a noção do tempo e mergulhamos na atividade, produzindo uma hiper motivação. E só percebemos tudo isso depois que o flow passa. Então percebemos o quanto estávamos profundamente engajados. Isso acontece porque o EU experiencial vive. Não cabe a ele pensar sobre a vida. Quem vai pensar e perceber sobre o flow e o engajamento é o EU projetivo.

A felicidade, então, é a adequação e equilíbrio entre esses dois EUs.


É olhar para o futuro e enxergar objetivos. É olhar para o passado e enxergar conquistas. E, certamente, poder olhar para a vida de uma maneira geral e enxergar significado.


Por outro lado, também é importante estar aqui, no presente e com a cabeça no agora. Ou seja, saborear o presente enquanto ele está acontecendo, enfrentando os desafios que estejam em linha com as nossas competências para atingir o estado de engajamento. E, na base de tudo isso, devemos semear relações de qualidade com as pessoas que amamos, sempre cultivando da forma mais valiosa possível, pois este é o bem mais precioso que temos para a nossa felicidade.


E a metáfora que costumo utilizar para resumir essa história toda, sobre a busca pela felicidade é: não viva sua vida como uma viagem. Na viagem, estamos o tempo todo esperando o destino chegar. Compramos a passagem, esperamos a data, fazemos o check-in, vamos para o aeroporto e tudo mais... Queríamos que todo o preparo da viagem, inclusive o itinerário dela acabasse logo, para chegarmos definitivamente ao objetivo. E depois de todo um enorme esforço e movimento, o destino chegou.

Tem gente que vive a vida desse jeito. O sujeito é adolescente e não gosta de ser adolescente, pois o legal mesmo é ser um adulto. Então ele se torna adulto e vai para a faculdade, mas não gosta muito da faculdade, pois o que ele quer é conquistar uma profissão. Logo, ele se torna um profissional e obviamente deseja um emprego. Conquista o emprego, mas a grande virada da sua vida é ser promovido - e assim por diante. Esse é o EU projetivo governando sua vida. Ou seja, é você contando uma história do futuro ou contando uma história do passado. A proposta aqui é evitar viver a vida como uma viagem. Esperando o tempo inteiro que o destino chegue, e que aquilo que você está fazendo agora acabe logo.


Minha proposta é, basicamente, vivermos a vida mais como um passeio. Todo passeio tem um destino, e o destino importa. Mas importa mais o caminho, importa mais você saborear a jornada até aquele destino. E se o destino chegar, ótimo! Mas se por algum acaso ele não chegar, pelo menos você saboreou o que estava acontecendo enquanto estava acontecendo. A jornada enquanto está ocorrendo é preciosa e ela é a única experiência autêntica que temos. Tenha sim objetivos. Orgulhe-se das suas conquistas. Valorize, agradeça e preserve as relações com as pessoas amadas da sua vida. Mas não esqueça de saborear, de aproveitar os instantes agradáveis que a vida lhe proporciona. De “veredar” pela jornada do instante momento profundamente. Tenha sim seu objetivo lá no horizonte, mas procure encontrar serenidade hoje. Que quando você deitar sua cabeça no travesseiro, tenha a certeza que hoje valeu a pena, que hoje você aproveitou ao máximo o que a vida lhe proporcionou. Que você fez hoje o seu melhor, saboreando essa experiência para que você consiga chegar lá.


A felicidade é um tema bastante complexo, e o que trouxe aqui, neste breve texto, é um pequeno apanhado de algumas perspectivas. No entanto, é importante deixar claro que essa perspectiva binária, de um EU projetivo e de um EU experiencial, não existe do ponto de vista do cérebro. Noutras palavras, não existem dois circuitos, de um EU projetivo e de um EU experiencial no nosso cérebro. A divisão é meramente didática, para facilitar a explicação de um fenômeno psicológico. Esta, portanto, não é uma abordagem na esfera neurocientífica, ela está mais associada à área psicológica.


Jefferson Shiun Flausino

Nova Iorque, Agosto de 2017.

Texto inspirado nos discursos do cientista Daniel Kahneman, Psicólogo.

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