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  • Jefferson Shiun Flausino

Para acessar a Verdade é preciso questionar!


Entre conflitos e confrontos, existe para o bom observador, a possibilidade de um profundo aprendizado. Mas você sabe a diferença entre conflito e confronto?


Ao percebermos nossa fragilidade física e mental (tais como doenças, medos, angústias e outras mazelas do corpo e da mente), paramos para pensar e questionamos o porquê, queremos encontrar uma resposta, uma forma de vencer essas vulnerabilidades que outrora não eram notadas com relativa propriedade (no sentido de nos fazer mudar). Até que o resultado dessas sensações produz derrotas e perdas consideráveis naquilo que julgamos essencial ou adequado para nossas vidas e nasce, portanto, o conflito.


O conflito, do ponto de vista filosófico, é sempre essencial para o desenvolvimento humano. Não há vida adequada sem que travemos íntimo contato com derrotas, impotências, doenças e dor, pois, indiscutivelmente, todas as vezes que nos conectamos com o sofrimento natural da vida (ou seja, aquele que não podemos evitar segundo nossa própria condição humana), esse contato nos garante como resultado, sempre, o aprendizado e o desenvolvimento da nossa consciência, e, portanto, o despertar da sabedoria, da capacidade de ver o que antes não era possível. Essa visão, então, nos direciona para um caminho mais construtivista, a partir da compreensão e expansão da inteligência cognitiva. Não existe um bom aprendizado na estagnação de corpo e mente, não há evolução sem movimento, é impossível a compreensão da vida enquanto estamos presos na zona de conforto. É preciso ver o que existe lá fora, fora de nossa mente ilusória e achismos, e, mesmo perseguindo o conforto em tudo que fazemos, acreditando ser isso o mais adequado e desejado, se permanecemos na zona de conforto quase nada acessamos como aprendentes e deixamos de saber para onde queremos ir e porque estamos indo. Logo, a experiência da vida se fragmenta e a ilusão de ter o controle sobre quase tudo nos envolve. Assim, maya, a ilusão sedutora e afável, nos encanta e ampara, nos acolhe como um entorpecente delicioso, nos dando o prazer de existir sobre a crença de que temos o controle de quase tudo na vida. Há um ditado italiano que gosto muito, ele diz: "Sabe como se chama quando tudo está sob controle? Alucinação!".


Ao questionarmos a ideia de conflito como instrumento de aprendizado e, portanto, como evolutivo, identificamos alguns aspectos da consciência estagnada que precisam ser revistos e reorganizados. Esses aspectos (muitas vezes eclipsados nos condicionamentos e medos) são difíceis de ser acessados enquanto maya, a ilusão, estiver no controle. A mente, portanto, não consegue produzir elementos suficientes de controle ou cessação das perturbações mentais, vriktis.


O conflito saudável (aquele que não resulta em confronto) produz sempre novas conexões neurais, estimulando os vórtices mentais, citas, a promoverem condições favoráveis a uma mente construtivista, tornando o cérebro mais hábil em resolver problemas e em diminuir as perturbações nocivas da consciência. Esses conflitos, como resultado, são responsáveis pelo bom aprendizado, ganho de sabedoria e melhoria da autopreservação.


Porém, quando os conflitos se transformam em confrontos, por falta de uma observação sensata das coisas e, com a interferência deletéria do ego, a desordem se instala na consciência: o caos envolve a mente e maya, a ilusão, começa a se alimentar da própria ilusão; e os vórtices mentais, citas, entram num ciclo vicioso que nos incapacita de perceber a verdade. Assim, o confronto mental impede que a consciência perceba sua inevitável impotência de controlar aquilo que preencha suas expectativas, seja de um indivíduo ou circunstância. O confronto é sempre prejudicial, o conflito não. Por exemplo, quando duas pessoas se sentam para debaterem diferenças de opinião sobre qualquer assunto, enquanto há o diálogo no qual ambas argumentam, conversam, questionam e depois, juntas, concordam em parte ou discordam totalmente, ao final do diálogo as duas pessoas vão embora podendo até mesmo não se falarem mais por divergências de opinião, todavia, ambas se ouviram, debateram, questionaram e chegaram a conclusões (ou talvez não), mas o respeito permaneceu incondicionalmente fiel ao debate e o aprendizado se fez presente para ambos. isso chamamos de um bom conflito. Por outro lado, se, durante o diálogo, um não concorda com o outro (e claro, sempre se tem o direito disso), mas um deles começa a adjetivar apenas, a tecer insultos ou tentativas veementes de conversão ideológica do outro, fechando-se totalmente para o debate inteligente e recusando-se ao diálogo construtivo, a isso chamamos de confronto.


Portanto, podemos compreender que os conflitos são sempre bem-vindos para acessarmos a natureza do Dharma, pois é impossível despertar nossa verdadeira natureza sem questionar e investigar, sem nos expor à experiência da vida, tal como ela é, com total imersão nas leis da natureza e com uma sincera devoção ao nosso papel neste mundo. Os conflitos nos fazem questionar, e os questionamentos ampliam nossa consciência e aprimoram nossas percepções. O yoga, enquanto filosofia, nos sugere como meta o estado de samádhi, o estado de autoconhecimento por excelência, para que então possamos acessar o objetivo final da prática, kaivalya ou moksha: a libertação de estados inferiores de existência, quero dizer, libertar-se do sofrimento desnecessário, não natural, produzido por uma mente perturbada e não treinada, a este sofrimento, chamamos de maya, a sedutora ilusão.


Diante dos conflitos naturais da vida, consideremos, portanto, como práticas essenciais ao despertar do Dharma, dentro do yoga, a observância nos yamas, niyamas, dhyana, ásana e pránáyáma. Sem essas considerações, como diretrizes de nossa prática yogui, não estaremos desenvolvendo a prática mais autêntica.


Que possamos, felizes, pela prática incessante, compreender a própria natureza humana, estudar a mente penetrando a própria mente, desvendar os fascínios da consciência pela experiência da vida tal como ela se apresenta, expandir nossa existência de forma a cumprir o Dharma e, então, realizar nosso projeto de vida.


Jaya! (Vitória)


Jefferson Flausino

Primavera de 2016

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